O Judiciário brasileiro enfrenta um desafio crônico: são mais de 80 milhões de processos ativos e cerca de 39 milhões de novas demandas ajuizadas por ano. Nesse oceano de petições, identificar manualmente ações repetitivas ou com indícios de litigância predatória é tarefa humanamente impossível. É para responder a esse desafio que surgiu a BERNA — e em março de 2026, ela deixou de ser uma solução goiana para se tornar patrimônio de todo o Judiciário nacional.

2,5M
Processos analisados
jan. 2025 – fev. 2026
353mil
Grupos de ações
similares identificados
90+
Tribunais brasileiros
conectados à plataforma

Uma ferramenta que lê o que as planilhas não conseguem ver

"A Berna se diferencia dos sistemas tradicionais por ler e interpretar o conteúdo textual das petições, identificando processos com similaridade de teses jurídicas."

Des. Leandro Crispim, presidente do TJGO

A Busca Eletrônica em Registros usando Linguagem Natural (BERNA) é uma ferramenta de inteligência artificial desenvolvida pelo Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) e em uso desde 2020. Diferentemente dos sistemas de busca tradicionais — que dependem de campos estruturados, como número de processo ou classe —, a BERNA utiliza técnicas avançadas de Processamento de Linguagem Natural (PLN) para ler, interpretar e comparar o conteúdo textual das petições iniciais.

Em termos práticos: a ferramenta recebe documentos em formato digital (.pdf ou .doc), extrai automaticamente as informações relevantes, aplica métricas matemáticas de similaridade e compara cada petição com um banco de dados de casos anteriores. O resultado é o agrupamento inteligente de ações que tratam do mesmo tema, apresentam pedidos padronizados ou seguem um modelo repetitivo de argumentação.

Como funciona a BERNA

  • Recebe petições iniciais em formato digital (.pdf ou .doc) e extrai informações automaticamente via PLN
  • Calcula métricas de similaridade semântica e compara com banco de dados de processos anteriores
  • Agrupa automaticamente ações com o mesmo fato e tese jurídica, independentemente do sistema processual utilizado
  • Integra-se ao PJe, Projudi e outros sistemas de tramitação, gerando movimentações processuais automatizadas
  • Apresenta os resultados aos magistrados em painel consolidado, permitindo julgamentos em lote

De Goiânia ao Brasil: uma trajetória de inovação colaborativa

A história da BERNA é também a história de como uma solução local pode, quando bem estruturada, tornar-se referência nacional. Criada no laboratório de inovação do TJGO, a ferramenta foi testada inicialmente nas execuções fiscais da Prefeitura de Goiânia — escolhida pela padronização de suas petições, que formava o ambiente ideal para o aprendizado da IA.

2020

Criação e implantação no TJGO

A BERNA entra em operação no Tribunal de Justiça de Goiás, automatizando movimentações processuais na escrivania e nos gabinetes de magistrados.

2023 – 2024

Expansão para outros tribunais estaduais

Por meio de Termos de Cooperação, o TJGO firma parcerias com seis tribunais: Pará, Ceará, Sergipe, Maranhão, Amazonas e Roraima.

Dezembro de 2025

Nacionalização pelo CNJ via Projeto Conecta

A BERNA é disponibilizada na Plataforma Digital do Poder Judiciário (PDPJ-Br) e no Jus.br, tornando-se acessível a todos os tribunais do país. É a segunda iniciativa nacionalizada pelo Projeto Conecta e a primeira da gestão do ministro Edson Fachin.

Março de 2026

Webinário CNJ e consolidação nacional

O CNJ realiza o Webinário Conecta dedicado à BERNA, ampliando o treinamento de magistrados em todo o Brasil e consolidando a ferramenta como pilar da política nacional de inovação judicial.

O que muda na prática para advogados e magistrados

Para os magistrados, o benefício mais imediato é a redução do tempo de análise: ao receber uma petição inicial, o juiz é informado automaticamente se há grupos de processos semelhantes já catalogados, o que permite decisões em lote, uniformização de entendimentos e gestão estratégica do acervo. O que antes exigia horas de pesquisa manual passa a acontecer em segundos.

Para os advogados que atuam em contencioso de massa — como o trabalhista, o tributário e o consumerista —, a BERNA representa uma mudança de paradigma. Escritórios que utilizam petições padronizadas em larga escala passarão a ter seus processos identificados e agrupados mais rapidamente, o que pode tanto acelerar a resolução de demandas legítimas quanto coibir práticas de litigância predatória.

Litigância predatória em foco: A BERNA é agnóstica quanto ao mérito das ações. Ela não decide quem tem razão — identifica padrões. Isso significa que tanto demandas legítimas em massa quanto ações frívolas ou industriais serão detectadas. O julgamento jurídico continua sendo humano; a triagem inteligente, não.

O conselheiro do CNJ Rodrigo Badaró sintetizou bem o alcance da ferramenta: ela oferece "suporte técnico qualificado, com capacidade de organizar grandes volumes de dados, identificar padrões e conferir mais segurança e consistência às decisões judiciais". Em um sistema com mais de 80 milhões de processos ativos, isso não é pouco.

O que advogados precisam entender sobre a BERNA

A chegada da BERNA a todos os tribunais brasileiros não é apenas uma notícia de tecnologia — é uma mudança no ambiente competitivo da advocacia. Profissionais que hoje precisam monitorar manualmente padrões de julgamento terão à disposição (indiretamente, por meio das decisões judiciais) uma inteligência estruturada sobre como os tribunais enxergam suas demandas.

Pontos de atenção para escritórios jurídicos

  • Contencioso de massa: ações trabalhistas, tributárias e de consumo serão sistematicamente agrupadas. Estratégias de peticionamento devem considerar esse novo contexto.
  • Uniformização acelerada: com o agrupamento de processos similares, a tendência é que entendimentos jurisprudenciais se consolidem mais rapidamente — para o bem ou para o mal da tese defendida.
  • Monitoramento de padrões: a ferramenta permitirá aos tribunais identificar escritórios com alto índice de ações repetitivas, tornando transparente o que antes era invisível.
  • Qualidade processual em evidência: petições bem fundamentadas e tecnicamente diferenciadas terão mais facilidade de se destacar do agrupamento genérico.

Um Judiciário que aprende com seus próprios dados

A nacionalização da BERNA pelo CNJ em março de 2026 marca um momento simbólico na história da inovação judicial brasileira: pela primeira vez, uma solução de inteligência artificial desenvolvida por um tribunal estadual passa a operar em escala nacional, com governança centralizada e acesso democrático para todos os tribunais do país.

Mais do que uma ferramenta de automação, a BERNA representa uma mudança de filosofia: o Judiciário passa a aprender com seus próprios dados, tornando padrões visíveis onde antes havia apenas volume. O caminho para uma prestação jurisdicional mais eficiente, coerente e previsível passa, cada vez mais, por ferramentas como esta.

Para advogados, escritórios e departamentos jurídicos, o recado é claro: a inteligência artificial não é mais o futuro do Direito. É o presente — e ele já está analisando sua próxima petição.